Botava para quebrar ou Brasil estava perdido, diz Bolsonaro — Caso Geisel

Terça-feira, 15 Mai, 2018

O documento foi recentemente liberado para publicação pelo governo -americano, ao lado de outros 404 memorandos, e descoberto pelo pesquisador de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor.

O documento relata que o presidente destacou a gravidade do assunto, levantou aspectos prejudiciais de tal política e disse que gostaria de refletir antes de dar seu aval. Também esteve presente o general João Baptista Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Além disso, Geisel afirmou que os assassinatos só deveriam ocorrer após Figueiredo aprovar as execuções.

Segundo o documento, Geisel e Figueiredo concordaram que quando o CIE detivesse alguém que poderia cair na categoria de subversivo perigoso, o chefe do Centro de Inteligência do Exército deveria consultar o general Figueiredo que, por sua vez, deveria dar sua aprovação antes da execução. Figueiredo, aliás, também da ala "branda", seria o último presidente da ditadura, continuando a a abertura de Geisel e entregando o cargo sem resistência. A este respeito, o General Milton disse que cerca de 104 pessoas nesta categoria foram sumariamente executadas pela CIE durante os anos anteriores (1973), aproximadamente. "Matar, portanto, era uma política de Estado, que ficou absolutamente demonstrado agora", afirma Dias, que advogou em defesa de presos políticos durante a ditadura militar.

"Em 1º de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política (de eliminação de dissidentes) deveria continuar, mas que deveriam tomar cuidado para certificarem que somente os subversivos perigosos fossem executados", aponta o relatório. Para, depois, reforçar: "O que pode ter acontecido com este agente da CIA?" Coutinho, por sua vez, narrou para Geisel sua experiência com execuções à frente do IV Exército. "Se tivéssemos agido com humanismo ao tratar esse foco de guerrilha, teríamos no coração do Brasil uma Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)".

No mesmo livro, Gaspari relata uma conversa entre Geisel e um tenente-coronel em janeiro de 1974. "E não liquidaram, não?", perguntou Geisel. As minúcias a que chega o relatório do diretor da CIA, mostra que a embaixada americana continuou durante todos os anos do regime militar monitorando as decisões dos generais brasileiros e delas tendo ciência prévia. No período, o Brasil também se distanciou dos EUA, selou um acordo nuclear com a Alemanha Ocidental e reatou as relações com o governo comunista da China e reconheceu a independência de Angola.

Um levantamento do G1 com base nos registros da Comissão Nacional da Verdade revela que oitenta e nove pessoas morreram ou desapareceram no Brasil por motivos políticos, a partir de 1º de abril de 1974 e até o fim da ditadura. Identificou, ainda, 377 agentes públicos acusados de crimes contra a humanidade.

O Exército informou que os documentos sigilosos relativos ao período em questão e que "eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época -Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos em suas diferentes edições".

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